sexta-feira, 30 de setembro de 2016


Irmãos da Argentina brilham e lideram nova geração do snowboard brasileiro
Augustinho e João Teixeira, 11 e 9 anos, são campeões argentinos e, ao lado da nova safra do país, mostram que a modalidade pode ganhar espaço no cenário mundial

 
 

 


O português sai arrastado, muito mais para um "portunhol". Augustinho Teixeira desce a montanha dominando a prancha de snowboard e, ao chegar à base da estação de esqui, sua mãe o espera. Nascido ao norte da Argentina, em Ushuaia, a "Terra do Fogo", o menino de 11 anos é filho de um hermano com uma baiana de Salvador. Ao lado do irmão João, de 9, ele é a principal esperança da Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) para colocar o snowboard masculino do país no mapa-mundi. Talentosos, os dois são campeões argentinos nas modalidades slopstyle e big air e, no Campeonato Brasileiro em Corralco, no Chile, mostraram que a nova geração de atletas do Brasil pode surpreender.



 
Augustinho começou no snowboard aos 7 anos, mas sempre esquiou com a mãe e o pai. Para se desenvolver no esporte, passou a frequentar as aulas do Clube Andino, em Ushuaia, onde treina diariamente durante o inverno. Observado pela CBDN, que não pretende perder o garoto para a Argentina, o prodígio é monitorado e trabalhado para os próximos anos. A ideia é que o jovem faça intercâmbios com técnicos americanos e seja preparado para a Olimpíada de Inverno da Juventude de Lausanne, na Suíça, em 2020.




 

- Não queremos perdê-lo de jeito nenhum. Já conversamos com a mãe dele, tivemos uma reunião de quase uma hora. Ele é a nossa futura Isabel Clark, com certeza. Ele e mais tarde o irmão dele. No início, podemos oferecer toda a nossa experiência para treinos e intercâmbios com os melhores técnicos dos Estados Unidos, já que o Augustinho chegou no limite de evolução dele com o técnico que tem hoje. Vamos prepará-lo para a Olimpíada de Inverno da Juventude e para futuros Jogos Olímpicos de Inverno - garante Carlos Eduardo Almeida, o Dinho, diretor de snowboard da CBDN.

Apaixonado pela radicalidade do snowboard, Augustinho treina inclusive no verão, três vezes por semana. No ano que vem, ao fazer 12 anos, será federado para seguir competindo na Argentina, mas a CBDN já pediu que ele não tire a carteirinha da Federação Internacional de Ski (FIS) pelos hermanos, o que é possível a partir dos 13 anos. Assim, tiraria o documento pelo Brasil e vestiria verde e amarelo nas competições internacionais. No que depender dele, apesar da dúvida inicial, esse é o caminho natural.

- Ihhhh, eu não sei... Hummmm, quero representar o Brasil. Meu sonho é ser um atleta profissional de snowboard e chegar nas Olimpíadas e nos X-Games. Para o pessoal da Argentina é estranho ver um brasileiro vencendo as competições lá. Eu não presto muita atenção nessas coisas. O meu negócio é competir, já tenho uma disciplina de atleta de slopstyle. Gosto dele e do big air, mas gosto de tudo e meu sonho é disputar uma Olimpíada de Inverno pelo Brasil - garante Augustinho, que pretende virar profissional aos 15 anos.






O irmão João vai pelo mesmo caminho. Tem muito talento e já foi avisado pela CBDN que deve seguir os treinos visando seu aperfeiçoamento.

- Também quero ser profissional. Gosto muito do snowboard. Ando há três anos e compito também há dois anos. Gosto das três modalidades e prefiro esse esporte ao futebol. Como meu irmão, quero representar o Brasil - diz o pequeno João, de 9 anos

NOVA SAFRA DE ATLETAS CHEGANDO
Keoni Rennó é prat
icamente do tamanho da sua prancha. A jaqueta para conter o frio da montanha o esconde completamente. O colete que identifica cada competidor é maior que ele. Mesmo assim, o paulistinha de 4 anos de Ubatuba participou da prova de slalom do Campeonato Brasileiro amador de snowboard e arrancou aplausos para delírio do pai José Rennó, 54 anos, ex-surfista profissional. O garotinho de sorriso fácil é o maior exemplo de uma nova geração que, ao contrário da primeira safra de snowboarders do Brasil, começou cedo no esporte.
A disputa em Corralco contou com uma dezena de garotos e garotas entre 4 e 13 anos. É neles que a CBDN aposta. O Campeonato Brasileiro é disputado desde 1995, mas nos primórdios era quase impossível a presença de crianças. Só adultos competiam, e a grande maioria tinha outra ocupação, usando o snowboard como hobby. Hoje, os filhos dos "dinossauros da neve" repetem o que já aconteceu com o surfe anos atrás e que resultou na revelação da Brazilian Storm com Gabriel Medina, Filipe Toledo & Cia.

- O snowboard está repetindo o que já aconteceu com o surfe. Nós já éramos velhos quando começamos no esporte. Nos Estados Unidos, você está na segunda geração de filhos de snowboarders. Essa é a nossa primeira geração. Eles começaram a praticar bem mais cedo e a competir também. O surfe está na primeira geração de filhos, com o Gabriel Medina, por exemplo. Esses meninos de agora com certeza terão resultados muitos melhores do que tivemos - diz José Rennó, que também tem o filho Kailani, de 11 anos, no Campeonato Brasileiro.

CEO da CBDN, Pedro Cavazzoni explica que a entidade tem projetos de médio e longo prazo para a nova geração de atletas do snowboard, conseguindo técnicos, planilhas de treino e inclusive ajuda financeira para os que mais se destacarem.

- Mapeamos tudo que um atleta precisa fazer em várias idades ao longo da carreira em termos técnicos, físicos, as competições que ele precisa participar, os resultados que precisa conquistar para mostrar que está indo no caminho certo de ser um atleta de ponta. Vamos facilitar nesse caminho. Se não temos um treinador no Brasil, podemos ajudar com outras federações amigas. Se o menino é bom, tem talento e tem vontade de seguir no esporte, vamos ajudar para que ele evolua e não fique batendo cabeça sem sair do lugar. Até em relação financeira. Seria um auxílio estrutural, mostrando o que deve ser feito e os resultados sendo alcançados, auxílio financeiro também.

No último domingo e segunda, na estação de Corralco, no Chile, Augustinho Teixeira (infantil), João Teixeira (mirim), Kailani Rennó (pré-mirim) e Sofia Maio (pré-mirim) foram campeões brasileiros de snowboard cross, slalom gigante e big air (este último não teve disputa de pré-mirim).